A dificuldade em converter as competências domésticas em ativos corporativos nasce de um viés estrutural que associa trabalho apenas ao ambiente formal, desconsiderando o esforço exaustivo da gestão do lar
O mercado de trabalho tradicionalmente encara o período de licença-maternidade como uma pausa na trajetória profissional. No entanto, para Marcelo Veras, especialista em Trilhas de Liderança e CEO do Ecossistema Inova, essa visão reflete uma “miopia corporativa” que ignora um dos laboratórios mais intensos de gestão de pessoas e processos. Enquanto o mundo corporativo busca inspiração em atletas e artistas, a rotina materna — pautada por decisões sob pressão, resiliência e agilidade — permanece como uma forma de liderança invisível, subestimada por gestores e departamentos de Recursos Humanos.
A dificuldade em converter as competências domésticas em ativos corporativos nasce de um viés estrutural que associa trabalho apenas ao ambiente formal, desconsiderando o esforço exaustivo da gestão do lar. Veras argumenta que a mulher que retorna ao cargo após o nascimento de um filho não traz apenas uma nova configuração familiar, mas um currículo fortalecido. “A mulher que volta da licença-maternidade acabou de fazer mestrado e doutorado em resiliência, em atenção plena, em comprometimento e execução. Isso a gente deveria querer aproveitar e não descartar”, comenta.
Gestão de crise e a arte da negociação
No cenário de alta liderança, pilares como a gestão de crises e a tomada de decisão rápida são fundamentais. Na maternidade, essas competências são exercitadas o tempo inteiro, já que administrar uma casa com crianças envolve lidar com variáveis imprevisíveis de forma dinâmica e priorizar respostas rápidas para manter a operação em dia.
Essa vivência aprimora também a capacidade de mediação. O especialista destaca que, na jornada de uma mãe, a negociação está presente o tempo todo, seja com o filho, o marido, parentes ou a escola. Para o RH, aprender com essa lógica de negociação constante e invisível pode ser a chave para gerir expectativas e mediar conflitos internos com a sensibilidade e a eficácia que o mercado atual exige.
Ambidestria e a eficácia no currículo
Um dos conceitos mais caros à estratégia moderna, a ambidestria corporativa — a capacidade de ser eficiente no presente enquanto se inova para o futuro — é praticada nativamente por mães. Ao equilibrar a gestão da rotina complexa com a construção do futuro da família e da própria carreira, essas profissionais demonstram uma visão sistêmica e uma capacidade de execução simultânea que poucas formações teóricas oferecem.
Para as empresas, a perda é estratégica ao não estruturar trilhas de liderança que acolham essas profissionais no retorno da licença, resultando muitas vezes em demissões incoerentes que descartam competências críticas. Veras sugere que, ao avaliar o currículo de uma mãe, o RH deve elevar o peso do comprometimento e da execução pela capacidade de entrega sob pressão, da flexibilidade para se adaptar a múltiplos cenários e do equilíbrio emocional necessário para gerir uma alta carga de demandas sem perder a qualidade.
“A maternidade não é um desvio de carreira, é uma aceleração silenciosa de competências de liderança”, analisa. Em um mercado que demanda líderes cada vez mais humanos, resilientes e ágeis, as organizações que primeiro romperem a barreira da invisibilidade materna garantirão uma vantagem competitiva real.
Sobre Marcelo Veras
Marcelo Veras é especialista em Trilhas de Liderança e CEO do Ecossistema Inova. Professor de Estratégia e Governança na Inova Business School, é autor de 13 livros sobre liderança e educação. Coordena o Comitê de Inovação da Câmara de Comércio Brasil-Suíça, é conselheiro na Amcham e atua em conselhos de empresas familiares, apoiando organizações em processos de transformação e alta performance.













