Por Pedro Paulo Morales
A chamada “neblina mental”, tem sido apontada para descrever uma série de problemas de cognição como falta de foco e velocidade de pensamento
O brasileiro sempre foi reconhecido pela capacidade de enfrentar dificuldades. Crises econômicas, desemprego, inflação e incertezas fazem parte da nossa história. Mas algo diferente está acontecendo. Pela primeira vez, parece que uma parcela significativa da população não está apenas enfrentando problemas. Está sobrevivendo a eles diariamente.
Um estudo recente da Starbem, healthtech de saúde mental acompanhou 1868 pessoas durante seis meses, revelou um dado preocupante: 72% dos trabalhadores brasileiros vivem atualmente em “modo sobrevivência”. Na prática, isso significa pessoas funcionando sob níveis elevados de estresse, pressão constante e uma sensação permanente de alerta.
O problema é que o corpo humano foi projetado para lidar com emergências temporárias, não para viver nelas. Quando a mente permanece ligada o tempo todo, o desgaste se acumula. O resultado aparece de diversas formas: irritação, ansiedade, dificuldade de concentração, baixa produtividade e problemas de relacionamento.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Segundo a pesquisa, 58% dos trabalhadores afirmam dormir mal ou muito mal. E quando o sono desaparece, a conta chega rapidamente. O cérebro perde capacidade de recuperação, a memória falha e as decisões passam a ser tomadas de forma mais impulsiva ou menos eficiente.
Especialistas têm chamado atenção para um fenômeno cada vez mais comum: a chamada “neblina mental”, este termo pode ser usado para uma série de problemas de cognição como falta de foco e velocidade de pensamento por exemplo. A pessoa está presente fisicamente, mas encontra dificuldade para organizar pensamentos, manter o foco ou lembrar informações simples. É como tentar dirigir em uma estrada coberta por neblina.
O mais preocupante é que esse estado deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina. Mesmo após o expediente, muitos trabalhadores continuam mentalmente conectados às demandas profissionais. O celular toca, uma mensagem chega, uma preocupação surge e o cérebro permanece trabalhando. Mesmo quando o corpo tenta descansar, a mente não desliga — e, pior, surge aquela incômoda sensação de aperto no coração.
Dentro das empresas, esse cenário gera outro fenômeno silencioso: o presenteísmo. Diferente do absenteísmo, quando o funcionário falta ao trabalho, o presenteísmo ocorre quando ele está presente, mas emocionalmente esgotado. Cumpre horário, participa das reuniões, responde mensagens, mas sua capacidade produtiva e criativa está muito abaixo do potencial real
Durante anos, o mercado apostou que mais produtividade resolveria todos os problemas e continua apostando errado quando espera que a Inteligência Artificial vá resolver todos os problemas. Hoje, fica cada vez mais claro que a equação é diferente, mesmo que se transforme o indivíduo em “superindivíduo”, não existe alta performance sustentável sem saúde mental.
Talvez o maior desafio das organizações modernas não seja aumentar a velocidade das pessoas, mas ajudá-las a desacelerar quando necessário. Porque nenhum profissional consegue entregar o seu melhor quando vive permanentemente em estado de emergência.
A boa notícia trazida pela pesquisa é que profissionais que receberam acompanhamento psicológico apresentaram melhoras no foco, produtividade e motivação provando que promover a saúde mental dos funcionários é uma estratégia fundamental para aquelas empresas que querem continuar crescendo, mantendo sempre o equilíbrio entre o lucro e uma cultura organizacional saudável.
O Brasil continua trabalhando. Mas uma parcela crescente dos brasileiros já não vive. Apenas sobrevive.
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