Por Marcelo Veras, especialista em Trilhas de Liderança e CEO do Ecossistema Inova
A consagração da Espanha como campeã da Copa do Mundo de 2026 e a trajetória resiliente da Argentina trazem lições profundas para o universo corporativo, revelando o que realmente determina a vitória em cenários de altíssima concorrência. Uma disputa desse nível exige o entendimento de que não estamos em um tiro curto de 100 metros, muito menos em uma maratona; trata-se de uma sequência pesada de 8 jogos intensificados na qual o foco precisa ser constante. O título espanhol e o sucesso dos finalistas mostram que o resultado não nasce do acaso, mas sim de uma postura implacável de entrega, estratégia e união coletiva.
Esse panorama joga luz sobre o principal erro estratégico da Seleção Brasileira, que desde 2010 deixou de apresentar um time coeso para colocar em campo o que chamo de um “catadão de estrelas”. A aposta em um modelo centrado em vaidades e individualidades — tendo Neymar como o principal expoente — minou a força coletiva, uma tese que defendi ainda em 2014 e que infelizmente se confirmou nas edições seguintes e no torneio deste ano. Não se trata de uma crítica pessoal, mas de um fato aplicável aos negócios: profissionais brilhantes que buscam o destaque próprio acima do ecossistema destroem a cultura de alta performance de qualquer organização.
Para desarmar esse individualismo e transformar talentos heterogêneos em uma equipe focada puramente no resultado, as lideranças de RH e de negócios precisam resgatar o valor do vestiário. Logo na estreia argentina nesta Copa, Lionel Messi declarou que a força do grupo estava justamente na união interna, o que ecoa a conhecida frase de Bebeto em 1994: ganhar exige foco total e a disposição de dar a vida um pelo outro. Nas empresas, a sinergia surge quando o líder estabelece um propósito maior que os egos, incentivando o time a jogar pela “camisa” e a entender que o sucesso pessoal é consequência direta do sucesso coletivo.
Construir essa cultura de confiança e ter a coragem de afastar quem compromete o foco do grupo exige, contudo, o respaldo da alta cúpula. O futebol já nos deu esse exemplo em 2002, quando o então técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari, enfrentou o clamor popular e cortou o atacante Romário devido à sua postura de estrelismo, priorizando a coesão do grupo e a igualdade de regras. Esse pacto coletivo deu origem à “Família Scolari”, um time totalmente fechado e focado que conquistou o pentacampeonato. No contexto empresarial, os gestores precisam dessa mesma autonomia real para tomar decisões impopulares e desligar high performers tóxicos pelo bem do grupo, pois a complacência com o comportamento inadequado arruína a colaboração de equipes inteiras.
Além da união, a consistência tática e psicológica até o último segundo diferencia os campeões dos vice-campeões. Ao longo da competição, seleções como Inglaterra, Egito e Cabo Verde cometeram o erro de recuar para defender o placar após os primeiros gols e acabaram sofrendo viradas implacáveis. Em contrapartida, a Argentina marcou cerca de 80% de seus gols nos últimos 10 minutos dos confrontos, lutando com intensidade inabalável até o apito final. Para os líderes de negócios, a mensagem é clara: o jogo só acaba quando termina, e a melhor forma de evitar a acomodação após as primeiras metas alcançadas é manter a equipe em constante estado de evolução, transformando a busca pela excelência em um processo contínuo de entrega, colaboração e superação.
Sobre o Marcelo Veras
Marcelo Veras é CEO do Ecossistema Inova e professor de Planejamento de Carreira, Estratégia e Governança na Inova Business School. Com uma sólida trajetória acadêmica e literária, é autor de 13 livros focados em liderança, estratégia e educação. No âmbito institucional, coordena o Comitê de Inovação da Câmara de Comércio Brasil-Suíça e atua como conselheiro na Câmara Americana (Amcham), além de compor o conselho de três empresas familiares brasileiras. Como consultor e palestrante, apoia organizações em processos de transformação e crescimento, com ênfase em ambidestria corporativa, governança e desenvolvimento de lideranças de alta performance.
Fonte: Assessoria de Imprensa do autor











