Capacitismo e despreparo das empresas ainda dificultam a inclusão
A Lei de Cotas, estabelecida pelo Art. 93 da Lei nº 8.213/91, representou um dos avanços mais importantes para a inclusão de pessoas com deficiência (PcD) no mercado de trabalho brasileiro. Ao obrigar empresas com mais de 100 funcionários a reservarem parte de suas vagas para esse público, a legislação ampliou oportunidades e ajudou a reduzir barreiras históricas de acesso ao emprego.
Porém, mesmo diante do avanço da inclusão profissional de PcD nas últimas décadas, os dados do Ministério do Trabalho e Emprego indicam que ainda há desafios importantes. Afinal, apenas cerca de 54% das vagas previstas pela Lei de Cotas estão efetivamente ocupadas no país, apesar da contratação de mais de 63 mil pessoas com deficiência no primeiro semestre de 2025.
Cadeirante, a jornalista Suellen Gonçalves, 30 anos, apresentadora do programa DiverCidade da Rede Câmara São Paulo, afirma que essa questão é muito mais profunda.
“A lei atua na obrigatoriedade, mas não na conscientização e na quebra de barreiras de um capacitismo estrutural que muitas vezes faz o contratante pensar que aquele funcionário com deficiência não vai render por ter uma deficiência, colocando isso acima do currículo da pessoa”, pondera.
A jornalista conta que se considera privilegiada por ter construído sua trajetória em ambientes preparados para a inclusão e diversidade, onde sempre teve voz ativa. Ainda assim, afirma que essa não é a realidade da maioria das pessoas com deficiência.
“Normalmente, no ambiente empresarial, a pessoa com deficiência é direcionada para uma função inferior àquela que poderia exercer, mesmo quando possui formação e qualificação para assumir cargos mais estratégicos”, afirma.
Essa realidade ocorre apesar das garantias previstas no Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que assegura o direito ao trabalho em ambientes acessíveis, incluindo adaptações razoáveis e recursos de tecnologia assistiva para que profissionais com deficiência possam desempenhar suas funções em igualdade de condições.
O desafio da contratação e inclusão na prática
Se a Lei de Cotas ajudou a abrir portas, a inclusão efetiva depende de um fator muitas vezes negligenciado: a preparação das empresas. Processos seletivos inadequados, desconhecimento sobre acessibilidade e a falta de sensibilização de lideranças e equipes ainda figuram entre os principais obstáculos para a construção de ambientes verdadeiramente inclusivos.
Diante disso, a capacitação de profissionais de Recursos Humanos e gestores têm ganhado relevância. Afinal, a inclusão não depende apenas do cumprimento da legislação, mas da capacidade das organizações de reconhecer talentos, eliminar barreiras e criar condições para que profissionais com deficiência possam desenvolver todo o seu potencial.
Para apoiar esse processo, iniciativas de formação voltadas à inclusão vêm ampliando o acesso a informações práticas sobre recrutamento, acessibilidade e gestão da diversidade. Um exemplo é o curso gratuito de Contratação de PCD da Escola de Pessoas.
Ministrado por Joelma Santos, mestre em Psicologia e pesquisadora da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho há mais de dez anos, o curso aborda temas como os impactos do preconceito na trajetória profissional de pessoas com deficiência, estratégias para promover acessibilidade nas organizações e o passo a passo para conduzir processos seletivos mais inclusivos e eficientes.
Voltado a profissionais de RH, recrutadores, headhunters, equipes de Departamento Pessoal e gestores, o conteúdo busca contribuir para que a contratação de pessoas com deficiência seja vista não apenas como uma obrigação legal, mas como parte de uma estratégia de diversidade capaz de fortalecer a inovação, a criatividade e o desempenho das organizações.
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