*Por Nayara Teixeira
O Brasil tem vivido uma crise de saúde mental no trabalho e os números não param de crescer. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ministério da Previdência Social (MPS), em 2024, os afastamentos por transtornos psicológicos chegaram a 470 mil – um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Esses dados acenderam um alerta não apenas para os profissionais de RH, mas para todo o mundo corporativo.
Diante desse cenário, as empresas devem repensar suas estruturas a fim de mudar essa realidade, por meio de práticas efetivas de saúde e bem-estar mental para seus trabalhadores. Criar um espaço seguro para que conversas sobre o assunto possam acontecer, por exemplo, é crucial para promover essas transformações, bem como para reduzir o estigma associado ao tema. Dessa forma, um ambiente onde os membros da equipe estejam confortáveis para compartilhar dificuldades e anseios, além de procurarem ajuda sem medo de julgamentos e represálias, é fundamental para que a organização cresça como um todo, melhorando também a vida pessoal de cada integrante do time.
Quando a discussão sobre saúde mental é normalizada, é quebrado o tabu que ainda existe ao redor deste tópico. Como consequência, aumenta o incentivo pela busca por auxílio de um profissional. Muitas vezes, apesar da relutância, só de ter um espaço seguro para expor os problemas já pode ajudar. Outro benefício que deve ser observado é o fortalecimento da cultura organizacional, movido a confiança, colaboração, respeito e positividade. Afinal, quando os trabalhadores e a gestão estão em sincronia, o fluxo de produtividade é muito melhor.
Segundo um estudo realizado pela plataforma de contratação Monster, 79% das pessoas que atuam no mercado de trabalho priorizam o seu bem-estar ao invés de uma promoção ou um aumento de salário. Sendo assim, quando as empresas promovem medidas para lidar com a saúde mental, os índices de absenteísmo e de turnover são reduzidos, uma vez que muitos afastamentos e demissões acontecem quando o clima no ambiente corporativo não é favorável. Além disso, a prática também atrai novos colaboradores e retém talentos, possibilitando o crescimento profissional e de carreira. Ao se ter confiança e perspectiva de futuro, o trabalhador automaticamente fica mais engajado e focado, aumentando também a sua produtividade, o que reflete diretamente no desempenho da empresa.
Contudo, não basta somente se mostrar disponível para escutar, é preciso implementar medidas para a prevenção dos transtornos. Assim, investir em programas de conscientização, informando os membros da equipe sobre os sintomas e tratamentos, coloca todos em alerta. Outras alternativas, como fornecer um canal de apoio aberto como psicólogos internos ou programas de assistência a colaboradores, que possam oferecer suporte e orientação em caso de problemas, potencializam a criação de um ambiente seguro. Além disso, é necessário treinar a liderança para que reconheçam os sinais e aprendam a melhor forma de lidar com a situação.
Facilitar o acesso à terapia, além de utilizar ferramentas tecnológicas que permitam um diagnóstico organizacional focado nos aspectos psicossociais, são iniciativas que as corporações podem e devem fazer para melhorar o dia a dia dos trabalhadores e garantir um ambiente mais saudável para se trabalhar.
Por fim, ressalto que a saúde mental tem se tornado uma crise em nosso país e, por conta dos estudos e das pesquisas, espera-se que sirva de alerta para que empresas tratem o assunto como prioridade dentro da estrutura corporativa. É preciso prevenir e não apenas tratar os sintomas, explorar a raiz do problema. Portanto, ao desenvolver um ambiente acolhedor e seguro, o trabalhador estará mais confortável para compartilhar as angústias, fazendo com que seja diagnosticado e tratado de possíveis transtornos psicológicos como o burnout, por exemplo. A empresa, por sua vez, terá um ambiente mais saudável e acolhedor, propício ao crescimento.
*Nayara Teixeira é Diretora de Produto e Operações da Mapa HDS. É Psicóloga, Mestre em Psicologia pela PUC-MG, e pós-graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela PUC-MG, e realizou pesquisa sobre fatores psicossociais no trabalho de profissionais de Tecnologia. Ela é integrante do grupo de pesquisas PSITRAPP da PUC-MG e do CT – Saúde Mental e Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho – ABERGO.
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