O Brasil, há décadas, opera um modelo que combina diferentes rotas energéticas renováveis em larga escala para a redução das emissões do transporte. A experiência com etanol, biodiesel e, mais recentemente, o biometano, posicionou o país como uma das referências internacionais na adoção prática de combustíveis de menor intensidade de carbono. Esse protagonismo começou nos anos 1970, quando o governo brasileiro lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) como resposta à crise do petróleo.
O programa incentivou a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e impulsionou o desenvolvimento de veículos movidos a esse tipo de combustível, estabelecendo uma base industrial que permanece ativa até hoje. Segundo a Agência Senado, o Proálcool foi um dos principais fatores que estruturaram a cadeia produtiva do etanol no país e permitiram a consolidação de um mercado interno para biocombustíveis.
"Enquanto boa parte do mundo ainda discute qual tecnologia vai liderar a descarbonização do transporte, o Brasil construiu um modelo híbrido. Etanol, biodiesel e agora biometano convivem na mesma matriz energética. Poucos países tiveram a oportunidade de testar tantas rotas ao mesmo tempo", afirma José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil.
Com o tempo, essa estratégia evoluiu para um ecossistema produtivo integrado que conecta agricultura, indústria energética, setor automotivo e infraestrutura de distribuição. A cadeia envolve desde a produção agrícola de matérias-primas, como cana-de-açúcar e oleaginosas, até o processamento industrial e a distribuição final do combustível. De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o país estruturou uma ampla cadeia produtiva para etanol e biodiesel, integrando produção agrícola, processamento industrial, logística e desenvolvimento tecnológico.
Hoje, os biocombustíveis ocupam um papel relevante na matriz energética brasileira de transportes. Em 2023, a produção combinada de etanol e biodiesel ultrapassou 43 bilhões de litros, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Essa escala distingue o país no cenário internacional. Ao contrário de iniciativas em fase piloto em outros mercados, o Brasil opera há anos com misturas obrigatórias de biocombustíveis nos combustíveis fósseis, política que permite reduzir emissões sem exigir mudanças estruturais na frota ou na infraestrutura de abastecimento.
Um exemplo é a mistura de etanol anidro na gasolina, atualmente fixada em 30%, além da possibilidade de abastecimento com etanol hidratado em veículos flex. Esse modelo permitiu a rápida disseminação da tecnologia flex fuel no país, que dominou a frota de automóveis leves desde meados dos anos 2000, de acordo com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Diversificação das rotas de descarbonização
Além do etanol, o biodiesel também desempenha papel relevante na descarbonização do transporte, especialmente no segmento de veículos pesados. O combustível renovável é misturado ao diesel utilizado por caminhões e ônibus, reduzindo a intensidade de carbono do combustível consumido pela frota. O governo brasileiro adota uma política gradual de ampliação da mistura de biodiesel ao diesel, estratégia que busca reduzir emissões e estimular o desenvolvimento da cadeia produtiva do biocombustível. Nos últimos anos, novas rotas também começaram a ganhar espaço. O biometano, produzido a partir da purificação do biogás gerado por resíduos agrícolas, industriais ou urbanos, surge como alternativa renovável para substituir combustíveis fósseis em veículos pesados. Embora o potencial brasileiro seja elevado, a produção nacional ainda é considerada incipiente quando comparada a mercados mais maduros, como alguns países europeus.
De acordo com o estudo elaborado pela LCA Consultores para o Instituto MBCBrasil, o biometano tem potencial para substituir até 70% do consumo de diesel no transporte pesado brasileiro até 2040. O estudo aponta que a demanda por etanol pode crescer significativamente nas próximas décadas, impulsionada tanto pela expansão do mercado doméstico quanto pela crescente busca global por combustíveis de menor intensidade de carbono.
A experiência brasileira tem ganhado ainda mais relevância diante de desafios no setor energético enfrentados por diversos países. Oscilações no preço do petróleo e preocupações com segurança de energia têm levado governos a buscar alternativas capazes de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo federal autorizou a ampliação da comercialização da gasolina com 15% de etanol (E15) em determinados períodos do ano, medida adotada para ajudar a reduzir custos de combustíveis e ampliar a oferta energética.
"Nos Estados Unidos, ampliar o E15 foi uma medida emergencial para lidar com preço e oferta de combustível. No Brasil, misturas elevadas de biocombustíveis já fazem parte da política energética há décadas. A diferença é que aqui isso não é exceção, é a regra", destaca José Eduardo Luzzi. A medida ilustra como os biocombustíveis vêm sendo utilizados como ferramenta para responder às pressões energéticas e climáticas.
Redução de emissões no transporte
Outro fator que explica o interesse internacional pelo modelo brasileiro é o potencial de redução de emissões associado ao uso de biocombustíveis. Estudos de análise de ciclo de vida indicam que o etanol da cana-de-açúcar pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 90% em relação ao combustível fóssil.
Próxima etapa da transição energética
Apesar dos avanços, o próximo passo da transição energética brasileira depende de ampliar investimentos e garantir previsibilidade regulatória para novas rotas tecnológicas. O levantamento do Instituto MBCBrasil projeta que a produção de etanol no país pode crescer até 2,4x até 2040, impulsionada pela expansão da produção de etanol de milho e por novas tecnologias de biocombustíveis. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do biometano e de outras alternativas renováveis dependerá da expansão da infraestrutura de produção, transporte e distribuição.
Se essas condições forem consolidadas, o Brasil pode reforçar seu papel global como produtor e como um dos principais exemplos de aplicação prática de soluções para a descarbonização do transporte.












