Por Cristiana Pinciroli
Estamos mudando mais rápido do que nunca — e sustentando menos do que gostaríamos.
Em 2026, as organizações brasileiras estão cada vez mais atentas à NR-01, que amplia o olhar para os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Mais do que uma exigência legal, ela sinaliza uma mudança de paradigma: saúde emocional, segurança psicológica e bem-estar relacional deixam de ser temas periféricos e passam a ser fatores estruturais de desempenho.
Vivemos um tempo obcecado por mudanças rápidas: novas estratégias, metodologias, cargos, slogans, inteligência artificial. Mas há uma pergunta que raramente fazemos — e que é central para líderes, organizações e profissionais de alta performance: o que realmente sustenta uma mudança ao longo do tempo?
A ciência do comportamento e da felicidade é clara: mudanças sustentáveis não nascem da pressa. Nascem da presença consciente ao longo do tempo.
Chamo esse processo de presença intencional: a capacidade de sustentar atenção, escolhas e comportamentos alinhados a valores, mesmo sob pressão. Não é sobre estar mais calmo, mas mais consciente. É isso que transforma intenção em prática e discurso em cultura.
No mundo corporativo, isso fica evidente. Contextos mudam, mercados oscilam, estruturas se reinventam. Mas o que transforma resultados não são grandes anúncios ou saltos pontuais de performance — são comportamentos praticados todos os dias, especialmente nos momentos de tensão.
Para organizar esse processo, utilizo um acrônimo simples e poderoso, estudado no campo da ciência da felicidade: FLIP.
O FLIP dialoga com o conceito de Shanah, do hebraico — palavra que significa ano, mas também mudança, aprendizado e repetição consciente. Um lembrete ancestral de que evoluir não é um evento, e sim um ciclo contínuo.
F — Fail (falhar)
Toda mudança real passa pelo erro.
Líderes que inovam, equipes que evoluem e culturas fortes só existem onde falhar faz parte do processo — sem medo, sem punição excessiva, sem silenciamento.
Do ponto de vista da neurociência, errar cria conexões neurais. É assim que aprendemos. A ciência mostra: primeiro criamos hábitos; depois, os hábitos nos criam.
Ambientes que penalizam o erro por meio de controles rígidos podem gerar obediência, mas não estimulam inovação, saúde emocional ou aprendizado profundo.
L — Love (conectar com o significado)
Mudanças duram mais quando estão ligadas a sentido, propósito e significado.
A pergunta não é “qual é o melhor método?”, mas “qual método gera engajamento real?”. No esporte, isso é claro há décadas: o melhor treino conecta o atleta a seus objetivos, simula o jogo real e mobiliza emoção e intenção. O mesmo vale para o mundo corporativo.
Pessoas persistem mais quando entendem o porquê do que fazem — e não apenas quando obedecem a metas que afetam sua remuneração.
I — Incremental (pequeno e possível)
Mudanças consistentes começam pequenas.
Quer desenvolver escuta ativa? Comece com uma reunião por dia.
Quer fortalecer a cultura? Um comportamento coerente por vez.
Quer melhorar bem-estar e performance? Menos discurso, mais prática cotidiana.
Pequenos passos, repetidos com intenção, geram transformações profundas. É o princípio dos ganhos marginais, amplamente comprovado pela ciência da performance sustentável.
P — Partner (parceria)
Pesquisas mostram que mudanças feitas em parceria têm até 200% mais chance de sucesso.
Não se trata de alguém para cobrar resultados, mas de alguém para caminhar junto: pares, lideranças, equipes, mentores. A performance humana é, antes de tudo, relacional.
Nas organizações, o FLIP deixa de ser apenas um modelo individual e se torna uma arquitetura cultural. Como erramos, como nos engajamos, como evoluímos e com quem caminhamos define a qualidade dos resultados ao longo do tempo.
Esse ponto ganha ainda mais relevância diante da NR-01, que propõe olhar para os riscos psicossociais não como reação a crises, mas como estratégia de prevenção, maturidade institucional e sustentabilidade da performance.
Nada disso se constrói com ações pontuais, campanhas isoladas ou discursos inspiradores. Constrói-se com práticas consistentes, lideranças conscientes e culturas que vivem aquilo que comunicam.
Shanah também significa estudar, aprender e repetir.
Porque mudança profunda não é sobre começar forte.
É sobre voltar, lembrar e praticar — de novo e de novo — ao longo da vida.
Talvez esse seja o verdadeiro diferencial das organizações do futuro:
não as que mudam mais rápido, mas as que aprendem melhor.
Alta performance não se constrói na urgência, mas na presença intencional, na ciência e nas escolhas diárias.
Cristiana Pinciroli é ex-atleta, especialista em alta performance sustentável, fundadora da WeTeam e mestre em Ciência da Felicidade. Atua no desenvolvimento de lideranças e culturas organizacionais no Brasil e no exterior.
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