Expansão dos veículos elétricos abre espaço para serviços de manutenção, infraestrutura, treinamento, componentes e reciclagem de baterias; formação de mão de obra já aparece entre os desafios para acompanhar o crescimento do mercado.
O avanço dos veículos elétricos no Brasil começa a transformar não apenas o que sai das fábricas, mas também os negócios e as profissões que existem ao redor do automóvel. Manutenção, infraestrutura de recarga, componentes, treinamento, softwares e, mais adiante, reaproveitamento e reciclagem de baterias formam uma cadeia que tende a crescer junto com a frota eletrificada e que exige conhecimentos diferentes daqueles tradicionalmente associados ao setor automotivo.
Desafios na Mão de Obra e Manutenção
Um dos desafios já aparece na manutenção. “Quando você fala num carro elétrico, você tem que ter uma pessoa que conhece carro, conhece mecânica, conhece eletricidade, eletrônica e que vai ter que ser treinada por questões superespecíficas daquele modelo”, afirmou Daniel Caramori, coordenador do grupo de veículos leves e membro do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Segundo Caramori, a dificuldade para atrair mão de obra para a manutenção automotiva já existe e ganha uma nova dimensão com a eletrificação. Para que um profissional esteja preparado para atender esses veículos, há uma sequência de conhecimentos e treinamentos que precisa ser construída.
O desafio tende a crescer à medida que a eletrificação avança dos automóveis para veículos comerciais e transporte coletivo. Nesses segmentos, disponibilidade é uma variável econômica fundamental. Um veículo comercial parado significa prejuízo e, portanto, a existência de assistência e profissionais capacitados passa a fazer parte das condições necessárias para que empresas ampliem suas frotas.
Pesquisa realizada na Costa Rica mostrou que caminhões elétricos ficaram cerca de 11 dias fora de operação para manutenção, ante aproximadamente 30 dias dos equivalentes a diesel.
Crescimento do Mercado e Infraestrutura
O desafio ganha urgência porque o mercado brasileiro acelera. De acordo com dados da ABVE, as vendas das tecnologias eletrificadas consideradas pela associação chegaram a 215 mil unidades no primeiro semestre de 2026, crescimento de 125% em relação ao mesmo período de 2025. A entidade trabalha com a expectativa de encerrar o ano com mais de 300 mil veículos eletrificados vendidos. Os números do primeiro semestre são confirmados pelos dados divulgados pela própria associação.
O crescimento dos veículos começa a ser acompanhado também pela infraestrutura. Segundo Caramori, o Brasil já contava com cerca de 25 mil pontos de recarga públicos e semipúblicos até o fim de maio, aumento de 21% em três meses. Os carregadores rápidos, embora ainda sejam minoria na rede instalada, vêm crescendo mais rapidamente.
Esse movimento ajuda a mostrar que a cadeia econômica criada pela eletrificação é maior do que a fabricação do veículo, que depende de decisões políticas que determinarão quanto da nova cadeia da mobilidade elétrica o Brasil será capaz de manter no país.
Capacidade Industrial e Formação Profissional
Para André Cieplinski, pesquisador-sênior do International Council on Clean Transportation (ICCT) Brasil, o país já possui capacidade para produzir localmente grande parte dos componentes e processos relacionados aos veículos elétricos, embora tenha feito uma ressalva em relação à produção completa de baterias, que classificou como uma disputa industrial global mais complexa.
Estampagem, pintura, carroceria e soldagem já fazem parte das competências da indústria brasileira. A eletrificação acrescenta áreas como:
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Arquitetura elétrica
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Eletrônica
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Software
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Engenharia de alto valor agregado
A formação de trabalhadores acompanha essa escolha. Quanto maior a parcela da cadeia instalada no Brasil, maior será a necessidade de profissionais preparados não apenas para fabricar os veículos, mas para instalar sua infraestrutura, operá-los, mantê-los e desenvolver os serviços que surgem ao redor deles.
Da Fábrica para Frente
Caramori, da ABVE, propõe olhar para um lado da cadeia automotiva que costuma receber menos atenção quando se discute política industrial.
Na indústria tradicional, é conhecida a capacidade de uma montadora de movimentar uma extensa rede de fornecedores antes que o veículo chegue à linha de montagem. Com a eletrificação, segundo ele, também é preciso observar o que acontece depois que o automóvel sai da fábrica.
A venda de um veículo elétrico movimenta empresas responsáveis por:
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Sistemas de recarga
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Componentes
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Instalação
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Manutenção
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Treinamento e outros serviços operacionais
A própria transformação da ABVE dá uma dimensão desse movimento. Segundo os números apresentados no encontro, a associação passou de cerca de 40 empresas em 2020 para aproximadamente 140 atualmente. Entre seus associados estão fabricantes e importadores de veículos, mas também empresas de infraestrutura, componentes e serviços ligados à eletromobilidade. A ABVE confirma atualmente cerca de 140 empresas associadas e informa que esse número mais do que triplicou desde 2020.
Cenário Internacional e Nova Economia
A mesma transformação já começa a aparecer em outros mercados latino-americanos. Silvia Rojas Soto, diretora da Associação Costarriquenha de Mobilidade Elétrica (Asomove), defende que a mobilidade elétrica não deve ser entendida apenas como uma mudança na maneira de se deslocar.
“Mobilidade elétrica é uma questão de uma nova economia”, afirmou.
Na Costa Rica, a expansão do mercado passou a criar negócios relacionados à infraestrutura de carregamento, manutenção dos veículos e baterias. Rojas destacou, entre os exemplos, uma operação industrial de reciclagem de baterias instalada no país, capaz de recuperar 99% dos componentes, segundo os dados apresentados por ela no encontro.
Para Rojas, esse é um dos motivos pelos quais a discussão sobre eletrificação deixou de ser exclusivamente ambiental e passou a envolver também política econômica.
Fonte: AViV Comunicação
Foto: Pixels











