Palmas para Dolores

Professor Carlos Delano

Carlos Delano Rebouças – Educador profissional | Revisor de textos |Facilitador de curso

Como qualquer profissional de saúde em tempos de pandemia, lá estava Dolores, com quase três décadas de dedicação ao ofício de técnica de enfermagem, diariamente no hospital de campanha de sua cidade. Para muitos, apenas uma rotina típica da profissão; para ela, mais uma oportunidade de servir à sociedade.

Entre corredores e leitos, a veterana da saúde se conduzia na rotineira atividade diária de cuidar da saúde de seus pacientes, e como muito orgulho dizia ao ser indagada sobre quando iria se aposentar: “Ficarei até o dia em que Deus não mais me quiser aqui. Enquanto tiver saúde, estarei, pois faço o que eu gosto e isso é que mais importa”.

Com a proliferação da pandemia, Dolores parecia que tinha encontrado ainda mais motivos para adiar o fim do seu ciclo. Aquela admirada membra da equipe hospitalar do único hospital de sua cidade se via na obrigação de continuar firme com o dom que Deus lhe deu, e já não se tratava apenas de uma vocação para a área de saúde, auxiliando médicos e enfermeiros na louvável missão de salvar vidas.

Dolores era mais que alguém que acompanhava os pacientes, que medicava sob orientações médicas. Dolores era alguém que fazia uma enorme diferença na vida dos sofridos pacientes, sobretudo daqueles que naquele hospital permaneciam sem acompanhantes, sozinhos, órfãos em um momento delicado e doloroso.

Dolores fazia as vezes de uma mãe ao higienizar e alimentar o seu filho. Sofria como um filho ao segurar as mãos de mães que sofriam só em pensar em deixar seus filhos sem seus cuidados. Chorava ao ver uma partida definitiva, sem tempo para despedidas. Alegrava-se com a lágrimas que banhavam um rosto feliz por uma nova chance de viver.

Assim era Dolores – uma mulher de tantos sentimentos simultâneos em uma UTI – que mergulhava profundamente mas dores e nas alegrias daqueles que chamava de filhos, pois para ela assim todos os seus pacientes eram definidos, até mesmo aqueles que mais pareciam seus pais e avós.

Uma pena Dolores não ter se aposentado… Não teve tempo para se despedir, nem mesmo para dizer um até breve. Faltou-lhe tempo para cuidar de si mesma. Faltou-lhe forças para resistir a esse invisível e impiedoso inimigo.

Dolores deixa saudades, sim, mas acima de tudo um legado: o de que temos o dever de servir à sociedade de alguma forma, fazendo de alguma forma a diferença na vida das pessoas, tendo o orgulho de não ter tido uma existência medíocre, num completo anonimato.

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