PERDÃO COM CARA DE ARQUIVAMENTO

Delano
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Carlos Delano Rebouças

Quem não possui uma gaveta sequer, pequenina, quem sabe, de algum armário de tantos em algum canto da casa? A minha, decerto possuo. Lá guardo muito de tudo que me pertence.

Tantos são os pertences que os temos aos poucos, mas que achamos que são muitos ou mesmo suficientes; tantos são nossos em guardas provisórias ou definitivas, mas que na verdade nem ao certo sabemos.  Ainda que, diante de tantas dúvidas se nos pertencem ou não, sempre tem um destino certo: A nossa gaveta.

Contudo, a nossa gaveta também possui um espaço além do físico. Longe de ser somente uma estrutura denotativa, por exemplo, apresenta-se abstrata, ocupando nossa mente e coração, unindo emoção e razão como únicos responsáveis pela resguarda de tudo que ocupara seus espaços. Estes, nem sempre amplos, às vezes, minúsculos, mas o suficiente para guardar muita coisa de bom e de ruim.

Quando pensamos em perdoar alguém por algo nos feito que nos deixou marcas, sobretudo difíceis de serem cicatrizadas, falar parece bem mais fácil que demonstrar que aconteceu verdadeiramente.

Certa vez, lendo uma parábola que tratava bem disso, parei para refletir sobre o perdão. Contava uma estória a qual um pai pediu ao filho, que insistia em ser um mentiroso, mesmo sabendo que aquilo machucava muitos aqueles que o amava, inclusive aquele sofredor pai que sempre estava ao seu lado, que a cada mentira dita teria que pregar um prego numa madeira escolhida de uma floresta; e a cada verdade dita um a um seria retirado, até que não pregasse mais nenhum na madeira, somente os retirando.

Então, chegou o dia tão esperado, aquele que confirmava que bendita madeira não continha mais nenhum prego fincado, sinal de que a verdade passava a ser uma constante na vida daquele garoto. Com isso, o garoto chamou o pai e disse:

– Está vendo, pai? Não há mais pregos!

O pai respondeu:

– Sim. É sinal de que não mente mais. Que bom! Mas pena…

O comentário final do pai chamou a atenção daquele garoto que esperava um desmedido entusiasmo. Então, sem demora, perguntou-lhe:

– Não está feliz, meu pai?

Respondeu o pai:

– Sim, mas olhe para essa madeira. Veja com tem marcas.

Continuou o pai:

– Meu filho, essa madeira irá ficar por muito tempo com essas marcas. Se duvidar, para sempre. Assim somos nós quando alguém nos machuca. Deixa marcas que o tempo não cura, mesmo que perdoemos. Ficam engavetadas, arquivadas sob a guarda da memória, ao aguardo de um novo dissabor.

É bem assim que funciona a vida e suas gavetas: Em algumas guardamos; em outras, arquivamos sentimentos que, quando menos se espera, são retirados e tratados como se fossem novos. E o perdoar que mais parece arquivar

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