O enxergar de um sonho

Professor Carlos Delano
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Carlos Delano Rebouças – Educador profissional | Revisor de textos |Facilitador de cursos

Como era de costume, Virgílio cedo se levantava, ainda por volta das 04h30, e depois de um breve banho tomava apenas uma xícara de café requentado do dia anterior e partia para a escola.

A escola era aonde queria chegar, não apenas fisicamente, mas, muito mais, porque sabia que lá era onde podia lutar pela conquista de seus sonhos, aqueles que se cultivam quando alguém entende que crianças e jovens pobres só têm na educação o único caminho para lutar por um lugar ao sol. Pena que nem todas de sua comunidade, nem mesmo seus oito irmãos, pensavam como aquele dedicado garoto que, aos 17 anos, continuava a dividir seus livros com o arado na lida diária com seus pais na roça.

Mas não pense que Virgílio tinha apenas esses obstáculos na vida, que podiam desestimulá-lo a desistir dos seus sonhos. Como era difícil para um garoto pobre, carente de praticamente tudo, morador da zona rural de uma pequena cidade nordestina, mostrar-se motivado a realizar o sonho de se tornar médico! E saibam que Virgílio ainda possuía sérias e graves limitações de sua visão, agravadas com o tempo pela falta de uma assistência médica especializada capaz de diagnosticar seu problema e quem sabe encontrar uma solução.

Mesmo diante de tantas adversidades, Virgílio seguia na esperança de um dia ver a vida lhe sorrir e quem sabe ter ainda mais ânimo, bem mais do que já era visto por todos da sua comunidade, a se confirmar pela sua aprovação no vestibular para medicina. Seria a sua maior conquista, o primeiro e mais importante passo em busca da realização de um sonho de criança, um sonho que não era apenas seu, mas sim de todos que se acostumaram a ver aquele menino se transformar em um homem dedicado aos estudos, focado no que projetou para a sua vida.

E esse momento chegou. Virgílio foi realizar o exame do vestibular. Quanta dificuldade teve para responder às questões, para produzir a redação! Sabia que sua visão seria mais um concorrente a ser superado em busca de uma vaga. Enquanto saíam pouco a pouco cada candidato ao término das provas, Virgílio ficava cada vez mais solitário naquela imensa e espaçosa sala, até que sozinho ficou, sob os olhares impacientes dos fiscais que o viram aproveitar todo o tempo necessário que tinha a sua disposição.

A ansiedade lhe tomou conta por dias, semanas, meses. Tudo que lhe importava naquele período era saber o resultado do exame, se tinha passado ou não. Contudo, sempre acreditava no êxito, que uma das vagas estava reservada sim para aquele garoto sonhador, para aquele menino que um dia planejou para sua vida se tornar um profissional da medicina.

E o resultado, enfim, saiu. Virgílio conquistou não somente uma das vagas na faculdade de medicina que sempre desejou cursar, mas também foi um dos mais bem colocados, despertando a atenção de muita gente, em especial, de um renomado professor e médico da cidade, que se propôs a ajudá-lo no tratamento de sua visão. Esse médico era um dos melhores especialistas na área da oftalmologia do país, tendo tratado muitos casos semelhantes ao de Virgílio.

Anos depois, aquele pequeno lugarejo rural ganhava um oftalmologista que dava assistência aos seus moradores duas vezes na semana, voluntariamente, ajudando a curar diversas doenças dos olhos, permitindo a muitos a oportunidade de poder voltar a enxergar. O sonhador Virgílio se transformava no Dr. Virgílio da Silva, o maior orgulho daquela comunidade.

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