O Brasil precisa de investimento

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Toda caminhada começa com um primeiro passo. A volta do crescimento econômico no Brasil pode ser comparada a essa metáfora. O caminho é longo, muito longo, mas o primeiro passo precisa ser dado e precisa ser assertivo, consistente e duradouro.

O crescimento do Brasil e o fim da mais longa recessão da história econômica brasileira precisa de um passo consistente, não de aumento eventual de consumo. Essa matriz econômica vimos no passado recente e “deu no que deu”. O crescimento pelo consumo pode dar certo por um tempo, mas não garante crescimento sustentado ao longo do tempo. Para gerarmos um ciclo virtuoso de crescimento efetivo, geração de empregos e renda para os brasileiros precisamos de investimentos.

“O investimento de hoje será o crescimento de amanhã”. Esta frase é aceita por qualquer economista.

Para que o Brasil tenha uma série de crescimentos da ordem de 2,5 a 3% ao ano, precisaríamos ter uma taxa de investimento da ordem de 23 a 24% do PIB ao ano. No entanto, estamos com uma taxa de investimento entre 15 e 16% do PIB, o que é muito baixa, muito aquém do que o Brasil precisa.

Apesar da inflação controlada, da queda dos juros da taxa Selic, da volta, mesmo que ainda lenta, do emprego e o Brasil apresentando crescimento de 1% do PIB em 2017, com perspectiva de aumento perto de 3% em 2018, o indicador da Formação Bruta de Capital Fixo (taxa de investimento) continua muito baixo. Se continuarmos com uma taxa tão baixa, estaremos contratando o “não-crescimento” nos próximos anos. Teremos mais um voo de galinha.

Na verdade, sabemos que o próprio governo criou nós que terão de ser desatados. Um deles é a PEC do Teto dos Gastos Públicos (Proposta de Emenda à Constituição 55/2016 ) que, a partir de 2018 e durante 20 anos, prevê que os gastos federais só poderão aumentar de acordo com a inflação acumulada conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Como o orçamento é menor do que os gastos correntes, Nação, Estados e Municípios forçosamente terão que cortar investimentos.

Outro problema – e não menos importante – responde pelo nome de Medida Provisória 777, que foi arduamente combatida pela ABIMAQ e­ introduziu a TLP (Taxa de Longo Prazo) em substituição à TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo). A TLP, que está fixada em 6,76% para 2018, é um índice que compõe as taxas de juros das linhas de financiamentos do BNDES. A taxa de juros do Finame é calculado pela somatória da TLP, mais del credere do BNDES de 2,1% e mais o “spread” dos bancos repassadores. Hoje em dia o Finame custa, em média, 14 a 15% ao ano. Muito acima do retorno dos investimentos. Nas operações diretas do BNDES (financiamentos acima de R$20 milhões) o custo médio é de 12% ao ano. Também muito alto. Com o detalhe que o BNDES financia somente 50% do empreendimento.

Os investimentos também estão prejudicados em função da grande alavancagem das grandes empresas no Brasil. Quando uma empresa investe com capital próprio, ela, na verdade, está utilizando lucros acumulados. Ora, se as grandes empresas não têm conseguido lucratividade nos últimos anos, como investir? Como é de conhecimento geral, grandes empresas estão “desinvestindo” com o objetivo de “desalavancarem” seus balanços.

Em resumo, para que a retomada caminhe a passos mais vigorosos e a iniciativa privada possa investir, o Governo – tanto o atual como o que será empossado em 2019 – precisa oferecer alternativas ao alto custo do financiamento. Um caminho seria diminuir a remuneração do BNDES (Del Credere) e transferir as operações indiretas para diretas, tirando o banco repassador do processo e com isso acabando com o spread. Seria uma forma de diminuir os juros do Finame e também das operações diretas. As taxas poderiam chegar à 11% e 9% respectivamente.

Na prática, o Governo – este ou o próximo – terá de regular o setor financeiro. Até agora os governos só agiram em detrimento da indústria, buscando o sonhado ajuste fiscal através deste setor. Agora, terão de tomar medidas que irão afetar o setor financeiro – para acabar com o maior spread bancário do mundo e aumentar a concorrência entre os bancos no Brasil – e melhorar as taxas de juros do BNDES e do Capital de Giro das empresas. Só assim atingiremos um crescimento sustentável. Através do investimento.

*José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ / SINDIMAQ.

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