Gestão Ambiental Empresarial – Meio Ambiente e Sustentabilidade

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Por José Alberto de Castro

Ao longo das últimas três décadas do século XX, cientistas, governos e ambientalistas debateram as questões do planeta no que tange a sua sustentabilidade e preservação de sua biodiversidade.

Este tem sido um processo construído ao longo de eventos sobre meio ambiente iniciado nos anos 1970 (ver artigos “Gestão Ambiental – Ações da ONU sobre Meio Ambiente” e “Gestão Ambiental – Sistema Brasileiro de Meio Ambiente” publicados anteriormente), que veem contribuindo para que a comunidade científica e os chefes de estado do mundo tenham uma agenda de discussão e deliberações sobre o meio ambiente e o futuro do nosso planeta.

As deliberações desses eventos somada a tecnologia da informação disponível neste século XXI deram uma nova dimensão às questões relacionadas ao meio ambiente, popularizando o debate e incluindo milhões de pessoas ao processo de se buscar alternativas para um convívio amigável entre natureza e desenvolvimento.

As empresas têm, ao longo dos anos, assumido posições de principal força condutora da sociedade, por sua presença na vida das pessoas quer como fonte de desenvolvimento local e regional, quer como beneficiárias de um mercado consumidor que garanta a sua sobrevivência. Ao assumirem este papel, as empresas adquirem responsabilidades que vão além da questão econômica. Conceitos como responsabilidade socioambiental e desenvolvimento sustentável foram incorporados ao planejamento estratégico das empresas a partir de uma nova realidade do mercado, no qual as organizações são avaliadas não só por seu desempenho econômico, mas também por suas ações em prol do meio em que estão inseridas.

Conceitos e Terminologias

  1. Sustentabilidade

Conceito da administração, que a define como a característica ou a condição de um processo ou de um sistema que permite a sua permanência, segundo parâmetros preestabelecidos, por um determinado período. Quando recorremos à gestão empresarial moderna, sustentabilidade passa a ser conceituada como a capacidade de o ser humano interagir com o mundo, usando os recursos naturais para atender suas necessidades presentes, e preservando o meio ambiente com o objetivo de não comprometer o atendimento das necessidades das futuras gerações.

  1. Responsabilidade Socioambiental

Forma pela qual a empresa anuncia e demonstra seu compromisso com as pessoas e o meio em que atua, através de um comportamento ético e de ações em prol do desenvolvimento econômico, ambiental e social. Atuando desta forma, a empresa promove ao mesmo tempo a melhoria da qualidade de vida de seus colaboradores e da comunidade no seu entorno, fatores tão importantes quanto a qualidade do produto ou do serviço e a competitividade nos preços, para garantir a sobrevivência da empresa.

A responsabilidade socioambiental é o conceito que exige que a empresa tenha por compromisso ir além de cumprir as normas e leis de seu setor no que tange ao meio ambiente e a sociedade.

  1. Educação Ambiental

Conceito abrangente de construção de cidadania, que valoriza a participação das pessoas, enquanto comunidade, para a construção de valores sociais (moral, ética, dignidade, respeito, solidariedade) capazes de melhorar o comportamento da raça humana para com o planeta em que vive.

No Brasil, foi aprovada a Lei 9.795 de 27/04/1999, que dispõe sobre Educação Ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental.

Em seu primeiro artigo esta Lei conceitua a educação ambiental nos seguintes termos: “Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”.

  1. Tripé da Sustentabilidade ou Triple Bottom Linea (TBL)

Conceito foi criado nos anos 1990 por John Elkington[1], representa a expansão do modelo de negócios tradicional para um novo modelo que avalia as empresas não só por seu desempenho econômico-financeiro, mais também pelos desempenhos ambiental e social. Este conceito é também conhecido como 3 P’s da Sustentabilidade (People, Planet, Profit), ou na tradução para o português, como PPL da Sustentabilidade (Pessoas, Planeta, Lucro), e determina que essas três dimensões devem interagir e ser trabalhada de forma holística no planejamento estratégico da empresa para que os seus resultados de fato lhe atribuam o título de sustentável.

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People ou Pessoastodo capital humano de uma empresa que está, direta ou indiretamente, relacionado às atividades desenvolvidas pela mesma.

Planet ou Planetacapital natural de uma empresa ou sociedade, é a perna ambiental do tripé.

Profit ou Lucroresultado econômico positivo de uma empresa, essa perna do tripé deve levar em conta os outros dois aspectos para que uma empresa seja economicamente sustentável.

 

      Figura 1 : Tripé da Sustentabilidade segundo o conceito do TBL – montagem do autor.
 
  1. Produção Ecoeficiente, Produção Limpa ou Produção Mais Limpa (P+L)

Método de gerenciamento que busca produzir mais bens e serviços, com utilização de menos insumos (matéria prima, recursos naturais e energia elétrica) e produção de menos poluição, menos resíduos tóxicos e não biodegradáveis.

Este modelo de produção pode ser obtido através da união entre, o fornecimento de bens e serviços sustentáveis que satisfaçam as necessidades humanas e a preços competitivos, com redução dos impactos ambientais e de consumo de recursos naturais, via reutilização e reciclagem de resíduos e subprodutos.

  1. Produção e Consumo Sustentáveis

Conceito que vai além da produção dos bens e serviços, englobada pelo conceito de Produção Mais Limpa, e evolui incorporando as melhores práticas de consumo, com o objetivo de minimizar impactos ambientais e sociais ao longo de todo o ciclo de vida de produtos e serviços.

  1. Desenvolvimento Sustentável

Conceito de desenvolvimento humano que se firma num modelo econômico que trabalha de forma equilibrada as dimensões: econômica, social, ambiental e cultural, ao longo do tempo, tendo por base o uso racional dos recursos naturais, para a evolução da economia, através da geração de emprego e dignidade ao cidadão.

A expressão desenvolvimento sustentável foi disseminada pelo Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que a definiu como: “O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

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Figura 2 : Desenvolvimento Sustentável, equilíbrio entre dimensões – montagem do autor.

  1. Ecoinovação

Ferramenta do sistema de inovação, que se define como: um novo processo de produção, consumo ou exploração de um produto (bem ou serviço) e que resulta, considerando todo ciclo de vida do produto, na redução de riscos ambientais, de poluição e de outros impactos negativos do uso de recursos em comparação com alternativas tradicionais.

Instrumentos de Gestão

O mercado nascido no final do século XX se consolida no século presente com características globalizante e sustentado por consumidores seletivos e atentos à postura das empresas quanto ao cumprimento de suas responsabilidades para com o planeta e a sociedade. Este mercado exige uma nova empresa, a qual teve que se remodelar e rever conceitos e posturas, sob pena de não sobreviver.

Além da pressão da sociedade e do estado através da crescente regulamentação, as empresas estão submetidas à pressão dos investidores que estão mais atentos aos comportamentos das empresas como forma de não porem em risco seus investimentos. Neste contexto a existência de passivos ambientais pelo descumprimento da legislação pode comprometer o desempenho econômico e a sobrevivência da empresa, o que é um risco não assumido pelo capital investidor.

Uma forma de sobreviver neste mercado é a empresa se tornar uma organização sustentável, pelo cumprimento da legislação ambiental e por suas ações voluntárias de natureza ambiental e responsabilidade social.

Atividade Empresarial e Abordagem Ambiental

O mundo tem trabalhado no sentido de profissionalizar e institucionalizar práticas de responsabilidade social e ambiental nas empresas. Neste sentido a criação do Índice Dow Jones Mundial de Sustentabilidade (DJSI) em 1999 foi um marco para: a incorporação da sustentabilidade; da governança corporativa; da gestão da marca e de risco; do financiamento de projetos sociais; do planejamento estratégico; e da gestão das empresas.

Na sequência do DJSI, bolsas de valores do mundo todo criaram seus índices, sendo que no Brasil a Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo, no ano de 2005, em conjunto com várias instituições corporativas, ONGs e o Ministério do Meio Ambiente criaram um índice de ações que é um referencial para os investimentos socialmente responsáveis, o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial.

O ISE tem por objetivo refletir o retorno de uma carteira composta por ações de empresas com reconhecido comprometimento com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial, e atuar como promotor das boas práticas no meio empresarial brasileiro.

Como forma de implantação de práticas ambientais, as empresas podem adotar três tipos de abordagem ambiental: controle da poluição, preservação da poluição e incorporação destas questões na sua estratégia empresarial.

O controle da Poluição se caracteriza como uma postura reativa da empresa, com atuação sobre os efeitos negativos de produtos ou processos e visam atender as demandas da sociedade e aos requisitos legais. Neste tipo de abordagem as ações ambientais são pontuais e não articuladas, com enfoque apenas no controle da poluição sem que se atue nas causas.

A prevenção da poluição é uma abordagem em que a empresa busca atuar nas causas, agindo sobre os produtos e processos como forma de obter uma produção mais limpa, mais eficiente e com menos desperdícios de recursos naturais e energia. Esta abordagem trabalha com as vertentes: uso sustentável dos recursos e controle da poluição, e um de seus instrumentos é a prática do conceito dos 4R’s: reduzir o consumo, reutilizar e reciclar os resíduos e repensar as práticas de produção.

A abordagem estratégica trabalha de forma sistematizada e integrada às questões ambientais (controle e prevenção da poluição) com os programas de gestão, resultando num modelo de gestão com objetivo na saúde financeira da empresa e na sobrevivência da mesma no mercado. Esta abordagem além de controlar e prevenir a poluição, prospecta oportunidades de negócio e o combate às ameaças de demandas ambientais do passado ou que possam vir a ocorrer no futuro.

Modelos de Gestão Ambiental

Os modelos de gestão ambiental datam dos anos 1980, e apresentam estruturação aplicável a qualquer tipo de empresa, os quais permitem a empresa estruturar suas decisões sobre os problemas ambientais e como eles se relacionam com as demais questões empresariais.

Na sequência apresentamos alguns modelos de gestão ambiental os quais combinam os conceitos dos três tipos de abordagem ambiental.

  1. a) Atuação Responsável (Responsible Care)

Modelo desenvolvido pela Canadian Chemical Producers Association nos anos 1980 com o objetivo de reverter a tendência de descrédito por que passava a indústria química, e sendo uma ação voluntária poderia servir de barreira contra ações fortes do estado na regulamentação deste segmento industrial. Este modelo foi adotado pela Abiquim – Associação Brasileira da Indústria Química no ano de 1992, no início como programa de adesão voluntária e a partir de 1998 se tornou obrigatório para as empresas associadas à Abiquim.

O modelo se direciona a um segmento industrial específico, adota a abordagem da prevenção da poluição e tem por princípio ações nas áreas da saúde, segurança e meio ambiente.

  1. b) Administração da Qualidade Ambiental Total

Modelo desenvolvido nos anos 1990 pela Global Envoironmental Management Iniciative (Gemi – ONU) baseado na ampliação dos conceitos da Gestão da Qualidade Total (TQM – Total Quality Management).

O modelo utiliza todos os conceitos (melhoria contínua; qualidade nos processos, no produto e no serviço; e participação das pessoas, do fornecedor ao cliente passando essencialmente pelos trabalhadores) e ferramentas (benchmarking; diagrama de Ishikawa e Pareto; e ciclo PDCA) do TQM, na busca da poluição zero.

O modelo se aplica a qualquer segmento empresarial e adota a abordagem da prevenção da poluição, pelo princípio que é mais barato evitar a poluição que tratá-la.

  1. c) Produção Mais Limpa – P+L

Modelo desenvolvido a partir do ano de 1980 pelas entidades da ONU[2] (PNUMA[3] e ONUDI[4]), com o objetivo de difundir os conceitos do desenvolvimento sustentável, e está centrado nos princípios da Conferência de Estocolmo (1972): lançar menos poluição no meio ambiente, gerar menos resíduos e consumir menos recursos naturais.

O modelo foi difundido a partir de adesão voluntária de empresas em mais de 30 países, sendo no Brasil coordenado pelo Senai-RS, e através das ações destas empresas se permeia todo o conceito e práticas da produção e consumo sustentáveis na relação das mesmas com as partes interessadas e com os clientes.

O modelo se aplica a qualquer segmento empresarial, trabalha todas as etapas da produção, ao longo do ciclo de vida do produto, e adota a abordagem prevencionista em processos, produtos e serviços como forma de mitigar os impactos da industrialização sobre o planeta.

  1. d) Ecoeficiência

Modelo desenvolvido no ano de 1992 pelas entidades da WBCSD (World Business Council for Sustainable Development) e OCDE (Organisation for Economic Co-Operatin and Development), com o objetivo de difundir os conceitos da melhoria de processos e produtos, de modo a se obter ao longo do tempo um estágio em que se atendam às necessidades humanas com melhoria da qualidade de vida e preservação da capacidade de carga do planeta.

O modelo se aplica a qualquer segmento empresarial, trabalha firmemente o conceito da reciclagem e tem foco nos produtos e seus impactos ao meio ambiente.

  1. e) Projeto para o Meio Ambiente

Modelo desenvolvido no ano de 1992 pela American Eletronics Association, tendo por objetivo incorporar as questões ambientais nos produtos da indústria eletrônica, e título original “Design for Environment (DfE)” porem difundido simplesmente como Ecodesign.

Originado numa indústria onde inovação é sua base para conquistar mercados, o ecodesign está estruturado como uma ferramenta de gestão para dotar as empresas de mecanismos que permitam desenvolver os processos de inovação de forma estruturada e sistêmica e com a capacidade de se antecipar aos problemas.

José Alberto de Castro

É engenheiro eletricista (UFC – 1979) pós-graduado, lato sensu, em Gerência de Marketing (UECE – 1999) e Gestão Ambiental (Unifor – 2010). Cursos de extensão em Desenvolvimento Gerencial em Gestão da Inovação, Gestão da Qualidade Total, Computação Aplicada à Engenharia de Distribuição e capacitação em ISO 14001:2004 Environmental Management Systems Lead Auditor Course. Foi professor substituto do Centro de Tecnologia da UFC. Atualmente é sócio da Concema, empresa que atua nas áreas de consultoria, treinamento e auditoria dos sistemas da qualidade (SGQ), ambiental (SGA) e da energia (SGE), engenharia e projetos de inovação e de pesquisa e desenvolvimento

[1] John Elkington nasceu em Padworth, Reino Unido, em 23 de junho de 1949, sociólogo e consultor, foi um dos precursores da responsabilidade social e ambiental nas grandes empresas. Fundou em 1987 a SustainAbility, uma instituição que orienta empresas como Hewlett Packard e Microsoft a produzir com responsabilidade socioambiental; autor de dezesseis livros, como o best-seller “Guia do Consumidor Verde” em 1988, que lançou a tendência de orientar os consumidores a escolher produtos de empresas ecologicamente corretas, criando um cliente ambientalmente exigente.

[2] ONU – Organização das Nações Unidas, é uma organização intergovernamental com sede em Nova York – EUA e com 193 estados-membros, criada em 24 de outubro de 1945 para promover a cooperação internacional e tendo por objetivo impedir outro conflito como a II Guerra Mundial.

[3] PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ou, em inglês, United Nations Environment Programme, UNEP. O PNUMA foi criado em 1972 durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, sendo regido pela Carta da ONU, e tem por objetivo coordenar as ações internacionais de proteção ao meio ambiente e de promoção do desenvolvimento sustentável.

[4] ONUDI – Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, ou, em inglês, United Nations Industrial Development Organization (UNIDO) é uma agência especializada da ONU fundada em 1966 e tem por objetivo promover e acelerar o Desenvolvimento Industrial Sustentável e Inclusivo (ISID).

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